Três anos de Carolina de Jesus: Ocupar é resistir

Por: Paloma Bittencourt

Há três anos, mais de 250 famílias começam a ocupar durante a madrugada um terreno no bairro de Jardim São Paulo, na zona oeste do Recife, local desabitado, o qual foi dado o nome de Carolina de Jesus, homenagem a uma poetisa e escritora negra e periférica, que se alfabetizou de forma independente e debateu muito sobre a luta urbana pela cidade. Atualmente a ocupação se tornou a possibilidade de reinvenção das lógicas de vida, lutando pelo direito à moradia, direito esse que vem sendo negado à grande parte do povo brasileiro, mesmo sendo um direito fundamental de todo cidadão. A constituição brasileira prevê que “são direitos sociais à educação, à saúde, ao trabalho, à moradia, ao lazer, à segurança, à Previdência Social, à proteção a maternidade e à infância e à assistência aos desamparados”.

Fotos: Paloma Bittencourt

A história da Ocupação Carolina de Jesus se deu por famílias organizadas pelo MTST (Movimento dos trabalhadores sem teto) reivindicando moradia em um terreno que tinha muitas dívidas e não cumpria função social, servia para ponto de tráfico e afins. Na ocasião, foi feita uma pesquisa a fim de saber qual era a situação jurídica para que pudesse alcançar uma condição concreta de pleitear a desapropriação do terreno, terreno esse importante, pois fica ao lado do terminal integrado do Barro. Com a ocupação, o MTST consegue pautar o direito à moradia e também o direito à mobilidade urbana.

Durante o processo de construção ao longo desses três anos de resistência houve muita luta, pois existe uma criminalização dos movimentos sociais e com a atual conjuntura do governo isto só vem piorando. Foram reuniões desmarcadas, tentativas de despejo, pessoas detidas e agressões por parte da polícia, uma verdadeira repressão do Estado. Apesar de tudo, a ocupação se manteve de pé, uma vitória que foi e continua sendo muito difícil, pois como todo território onde as comunidades estão inseridas, a vida não é fácil. Os direitos aos cidadãos não costumam a chegar, apenas o da polícia.

A Carolina ainda sofre com diversas repressões injustificáveis, a qual a polícia acha que é um território onde se pode acessar de qualquer forma. A luta tem sido difícil, mas é a prova da vitória e resistência dos moradores, que sempre que acontece algo em relação à comunidade, fazem atos, tomam iniciativas, conseguem debater a questão do direito, ainda que não aconteça de forma concreta. Hoje o terreno tem função social, abriga cerca de mil famílias e que continua recebendo mais. Com a ocupação, a redondeza se sente mais segura pelo fato de tem pessoas habitando o terreno. Para além disso, ao longo desses anos a comunidade foi crescendo estruturalmente e socialmente. Os barracos da ocupação que antes viviam com muita umidade oriunda das fortes chuvas, foram substituídos por caibros e madeiras, formando estrutura de casas através de ações dos voluntários do TETO (movimento de transformação de comunidades locais).

Os moradores por sua parte construíram uma creche, começaram a produzir hortas comunitárias, rodas de diálogos, mulheres começaram a se empoderar, mutirões foram feitos, além da formação política e muita força de vontade de conquistar mais, pois o caminho da mudança é a luta popular. Ainda se tem muita coisa a fazer e construir na Carolina. A moradora Marli Maria comemora toda essa evolução da ocupação: “O sentimento é de luta e é muito bom! A gente lutou muito, conseguimos chegar aonde chegamos e não tem ninguém que faça a gente desistir, a gente vai resistir até o final.” São muitos sonhos em uma ocupação só, mas todos serão alcançados com muita garra e resistência. Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito. A luta é pra valer.

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